Mudanças climáticas ampliam desigualdades e expõem comunidades mais vulneráveis à doença, aponta estudo
Nova pesquisa revela que decisões metodológicas podem definir quem recebe — ou perde — prioridade em políticas públicas de adaptação climática.

(um novo recorde de queimadas foi registrado no Pantanal em 2020, destruindo cerca de 30% do bioma; foto: Mayke Toscano/Secom-MT)
Um estudo internacional publicado na revista Nature Communications acende um alerta sobre os impactos desiguais das mudanças climáticas na saúde da população e mostra que a forma como a vulnerabilidade é medida pode influenciar diretamente decisões políticas e a distribuição de recursos públicos. A pesquisa analisou 4.918 setores censitários do estado de Nova York e identificou que até 30% das comunidades podem ser classificadas como altamente vulneráveis aos efeitos do clima extremo, como ondas de calor, poluição e inundações.
A pesquisa foi conduzida por cientistas das universidades de Yale e Maryland e utilizou 44 indicadores sociais e ambientais, incluindo renda, raça, acesso a serviços de saúde, risco de enchentes e exposição à poluição. O objetivo foi desenvolver e testar um Índice de Vulnerabilidade em Saúde Climática (CHVI) mais transparente e confiável.
“A vulnerabilidade climática não é apenas uma questão ambiental, mas um problema de justiça social e de saúde pública”, afirma Pin Wang, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Maryland..
Diferenças que mudam destinos
Os pesquisadores compararam dois modelos estatísticos distintos para calcular o índice — um indutivo, baseado em análise matemática avançada, e outro dedutivo, mais direto e utilizado com frequência por governos. O resultado mostrou que a escolha do método altera significativamente quem é considerado prioritário.
Segundo o estudo, a concordância entre os dois modelos foi de apenas 75,3%, o que significa que quase um quarto das comunidades pode ser classificada de forma diferente dependendo da metodologia adotada..
Em números absolutos:
O modelo indutivo identificou 1.476 comunidades vulneráveis
O modelo dedutivo apontou 1.476, mas com forte concentração em áreas urbanas
Apenas 868 setores censitários foram considerados vulneráveis por ambos os modelos.
Cidades mais expostas
As áreas com maior vulnerabilidade social concentram-se no Bronx, Brooklyn e Queens, enquanto a vulnerabilidade ambiental é mais intensa em regiões próximas ao Rio Hudson e no centro e sul de Manhattan. O Bronx aparece como o território com maior sobreposição de riscos sociais e ambientais.
“Esses resultados mostram que comunidades pobres, racializadas e com menor infraestrutura continuam sendo as mais afetadas por eventos climáticos extremos”, explica Kai Chen, coautor do estudo e pesquisador do Yale Center on Climate Change and Health.
Metodologia também é política
O estudo chama atenção para um ponto sensível: decisões técnicas podem gerar injustiça social. Dependendo da fórmula usada, uma comunidade pode deixar de ser reconhecida como vulnerável — e, com isso, perder acesso a investimentos em saúde, habitação e adaptação climática.
Nos testes de sensibilidade realizados pelos autores, o modelo dedutivo mostrou-se mais estável, com até 84% de concordância entre diferentes simulações, enquanto o modelo indutivo apresentou maior variação, chegando a apenas 70,6% de consistência..
“Não existe um modelo perfeito, mas transparência e cautela são essenciais para evitar que populações vulneráveis sejam invisibilizadas”, destaca Michelle Bell, professora de saúde ambiental em Yale e coautora do artigo.
Impacto nas políticas públicas
A pesquisa dialoga diretamente com iniciativas como o programa Justice40, do governo dos Estados Unidos, que determina que ao menos 35% dos investimentos climáticos beneficiem comunidades desfavorecidas. Segundo os autores, índices mal construídos podem comprometer esse objetivo.
“O risco é transformar uma ferramenta de justiça climática em um mecanismo que reproduz desigualdades”, alertam os pesquisadores.
O que vem pela frente
Os autores defendem que índices como o CHVI sejam usados não apenas como mapas técnicos, mas como instrumentos de diálogo com comunidades, gestores e formuladores de políticas públicas. Eles também reforçam a necessidade de atualização constante dos dados e maior participação social no processo.
“Medir vulnerabilidade é, acima de tudo, decidir quem será protegido primeiro”, conclui Pin Wang
Mais informação: Wang, P., O'Brien, F., Son, JY. et al. Uma estrutura de modelagem atualizada e análise de sensibilidade da metodologia para o índice de vulnerabilidade climática à saúde. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-68162-w